PORTO ALEGRE, 16 (Meridional) — A "Quinzena do Sofrimento" terminou assinalando dois fatos excepcionais: uma vitória incrivelmente espetacular do Grêmio sobre o Internacional e outra não menos convincente vitória do Instituto Meteorológico. Desde a "traição" do
tempo, domingo atrasado, que os milhares de fans do Grenal viveram com o nariz espetado no ar, tentando adivinhar as intenções de São Pedro.
O mais milagroso santo da atualidade — São Judas Tadeu — foi importantíssimo com preces e mais preces, implorando sua intervenção junto ao fleumático chaveiro das comportas celestes. Sábado, à noite, no entanto, tudo parecia perdido. Exatamente com sete dias antes, uma chuvinha miúda, pretensiosa, começou a cair, gelando o coração das "hinchas".
O céu conspirava novamente contra o clássico dos clássicos. Felizmente, o Instituto Coussirat de Araújo veio em socorro da torcida. O seu boletim, distribuído às 16 horas, afirmava que o dia de domingo — apesar das líquidas aparências — soria um domingo ensolarado e de temperatura amena... E o primeiro milagre ligado ao Grenal aconteceu: os nossos meteorólogos levaram limpamente a melhor limpando os céus da capital, inteiramente, dos aborrecidíssimos cirrus, nimbus, etc...
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No entanto, a grande, estarrecedora surpresa estava reservada para a tarde. Desde que o astrônomo chileno, subindo no alto dos seus telescópios, entendeu de acabar com o mundo dia 13, que a imaginação começou a fervilhar nos arraiais tricolores e colorados. O Internacional, principalmente, estava preocupado com as coincidências. Havia ja cinquenta partidas em que não amargava o pó da derrota.
Durante quatro e meio anos vinha mantendo o título máximo da cidade e do Estado, o 82º Grenal seria o 13º triunfo consecutivo sobre o seu adversário numero um desde 1910, jogado no dia 13 e de que mês — agosto — precisamente o dia fatídico para a humanidade, segundo o telescopista de Santiago.
Convenhamos que a carga de coincidências era pesada demais para os nervos gastos de uma torcida que vinha "sofrendo" ha quinze longos e penosos dias. Esse, o "handicap" que levava o Grêmio, onde Alan Kardec exclui qualquer participação de Ogun nos negócios domesticos...
E o "mundo colorado" se acabou mesmo. A vitória tricolor conquistada, perante uma multidão boquiaberta, depois de um trágico primeiro tempo, com três a zero no marcador, foi, para muita gente boa — desses que não acreditam mesmo na "urucubana", embora lhe reconheçam a existência... — obra do sobrenatural, um autêntico "golpe" do santo mais milagroso destes dias plúmbeos.
São Judas Tadeu nunca recebeu tantos agradecimentos, nem ouviu tantos desaforos (para equilibrar o balanço) como nestas quarenta e oito horas de exultação paroxística tricolor e de abichornamento hepático colorado.
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Com a surpreendente vitória do Grêmio — 4 a 3 — os colorados, além de perderem, o título de invictos absolutos, colocaram otimamente o Cruzeiro na tabela e abriram uma brecha para o próprio Grêmio aspirar, ainda, apesar de tudo, ao título máximo. A atual colocação é esta, por pontos perdidos:
Internacional — 2, para o Grêmio.
Cruzeiro — 3, para o Internacional (2) e Força e Luz.
Grêmio — 5, para o Internacional, Cruzeiro e São José (1).
São José — 7, para o Internacional, Cruzeiro e Grêmio (3).
Como se vê, o campeonato ficou embatucadíssimo, faltando ainda quatro rodadas do segundo turno. Tudo indica que o terceiro turno (neutro), a ser disputado apenas pelos quatro melhores colocados nos dois turnos iniciais, reunirá Internacional, Cruzeiro, Grêmio e São José em jogos decisivos pelo cetro do ano. [...]
Fonte: O Jornal (RJ), n. 7456, 17 ago. 1944, p. 13. Disponível em: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/110523_04/23018. Acesso em: 11 jul. 2025.