O SANTOS HONROU, NO RIO GRANDE DO SUL, O FUTEBOL PAULISTA
Atuando, ontem, à noite, contra o Internacional, campeão gaucho, o alvi-negro triunfou pela expressiva contagem de 4 x 0 — Antoninho, Arturzinho, na primeira fase, Telesca e Juvenal, no período complementar — Ótima a exibição da equipe santista em todo o decorrer da peleja — Boa arbitragem de Oswaldo Rolla — Renda: Cr$ 96.359,00 —Regressa, hoje, parte da delegação
PORTO ALEGRE, 24 (Especial) — Encerrando, esta noite, no estádio do Cruzeiro, localizado na famosa encosta da montanha, a sua campanha no Rio Grande do Sul, o Santos F. C. obteve magnífico triunfo, impondo-se ao Internacional, campeão gaúcho, e o mais renomado grêmio sulino nos últimos tempos, pela expressiva contagem de 4 a 0.
O estádio da "Colina melancólica", como é mais conhecida, aqui, a praça de esportes do Cruzeiro, ficou tomado, desde as primeiras horas da noite por considerável massa popular, tanto que muito antes do início do prélio principal, e quando ainda jogavam as equipes que disputaram o prélio preliminar, a polícia foi obrigada a mandar encerrar três dos cinco portões que dão acesso às dependências cruzeiristas.
O Santos, o primeiro aparecer em campo, foi saudado por demorados aplausos, fato esse que bem demonstra o grau de simpatia que aqui desfruta o grêmio santista, sem dúvida alguma o clube do Estado de São Paulo que melhor conseguiu — graças a sua exemplar conduta mantida em 1935, quando de sua primeira visita a Porto Alegre — um local de realce no coração do povo gaúcho.
Seguiu-se-lhe o conjunto do Internacional, havendo, logo após, a troca de corbelhas no centro do gramado, renovando-se, nesta ocasião, os aplausos do público.
MAGNÍFICO O SANTOS, LOGO AO INÍCIO
Os primeiros minutos foram de expectativa. O Santos investiu duas vezes seguidas, e o Internacional fez, por sua vez, dois contra-ataques de grande vistosidade, num dos quais, aos três minutos, Chiquinho, empenhado por Adãozinho, pôs a bola a escanteio, em último recurso.
Quem quebrou o equilíbrio existente até o 9º minuto foi o Santos, que entrou a forçar a retaguarda dos "colorados", exigindo de Ivo três difíceis intervenções.
O Internacional deu a impressão de que tendo entrado em campo certo do triunfo, ficara surpreendido não só pela resistência que o Santos vinha demonstrando em sua defensiva, como, principalmente, pela agressividade com que o quinteto santista passou a agir.
Com o correr do tempo, mais e mais se foi positivando a superioridade das ações postas em prática pelos visitantes. O quadro do Santos agigantou-se de maneira clara e positiva a partir do 12º minuto, entrando a ditar cátedra, fazendo o que lhe bem aprovinha com o balão de couro, e pondo em pânico, amiudadas vezes, o reduto guarnecido por Ivo.
Aos 15 minutos, o Santos levou ao placar a sua predominância territorial, cabendo a Antoninho anotar o 1º tento de seu clube.
Se o Santos, com igualdade no mostrador, já se vinha evidenciando como o melhor quadro em campo, mais operoso e mais eficiente, ainda se tornou após a consignação do tento de abertura.
Daí por diante, até o final da primeira fase, o Santos predominou amplamente, parecendo ser ele, e não o Internacional, o quadro acostumado a jogar no Rio Grande do Sul.
Os dois a zero com que findou o 1º periodo, foi um resultado perfeitamente justo. O Santos, por todos os títulos, fez jus àquela vantagem, pois que o seu quadro manobrou sempre com mais clareza e positividade que o seu oponente.
NO 2º TEMPO O SANTOS TOMOU CONTA DO GRAMADO
No intervalo do 1º tempo para a fase de encerramento, havia como que um ambiente de surpresa em quase toda a "Colina melancólica", principalmente no local em que se alojavam os afeiçoados ao Internacional. Entretanto, havia, ainda, a esperança de que, o conjunto de Adãozinho, dono de grandes quão inegaveis possibilidades, viesse a reagir no 2º tempo, fazendo com que o panorama da peleja passasse a ser favorável à representaçao gaúcha.
Todavia, nem bem o juiz apitara para o reinício da contenda, e já o Santos se punha em contato com a defesa do grêmio rubro. E antes que os cronômetros registassem o 2º minuto de jogo, já o alvi-negro praiano anotava o seu terceiro gol.
O Internacional sentiu o choque. Tanto o sentiu que ficou completamente atônito, de nada adiantando os gritos de incitamento que partiam, a cada instante, da torcida "colorada", agora mais entusiasmada do que nunca.
Passou, então, a preponderar, com exclusividade, a equipe do Santos. As suas idealizações para armar o jogo obedeciam como que a um plano pré-estabelecido. Valeu a pena ver-se o conjunto santista atuar no 2º período do interestadual desta noite, já que se pôde constar, em toda a sua plenitude, o valor do vice-campeão paulista de 1948. Se no encontro com o Gremio os praianos haviam incorrido em vários erros, advindos, talvez, da pouca ambientação e do cansaço originário da viagem, já hoje aquelas imperfeições deixaram de existir por completo, uma vez que o quadro de Artigas brindou o público porto-alegrense com uma exibição que há muito não se via na capital dos pampas.
O Santos tomou para si, na fase derradeira, o comando da partida. Apenas de longe em longe é que o Internacional, valendo-se da fibra de seus ataques, buscava, num contra-ataque a maneira que se lhe parecia mais propícia para poder amenizar a contagem que se afigurava desastrosa.
Dono do campo e senhor do placar, o Santos passou a oferecer ao público um futebol rico em técnica, lindo em movimentação, ora abrindo jogo pelas extremas, onde se revezavam a cada instante Pinhegas e Floriano, ora se infiltrando pelo centro, onde surgia a figura ímpar do grande meia esquerda Antoninho, cujo esquecimento por parte dos mentores da concentração de Poços de Caldas se nos pareceu — diga-se de passagem — um autêntico crime cometido contra o futebol brasileiro.
Já farto de receber aplausos, tendo julgado que cumprira o seu dever de proporcionar ao público um futebol de alta classe, o Santos resolveu, pouco antes de terminar a liça, conduzir mais um número ao mostrador. E fê-lo como quem quer mostrar que futebol não é só para arquibancada, mas, sim, e muito, para se fazer tentos que concedam maiúsculos triunfos.
MAGNÍFICA VITÓRIA
Bonita, sob todos os aspectos, a conquista obtida na noite de hoje, pela representação do Santos F. C.. Coube ao seu quadro levar de vencida, por uma contagem contundente, em terras gaúchas, o melhor esquadrão do Rio Grande do Sul dos últimos tempos. E tanto basta para evidenciar, de forma assaz clara, o brilho da vitória que o Santos levará consigo para o Estado de S. Paulo, a quem honrou, sobremaneira, por haver vencido, e de maneira espetacular, ao famoso Internacional.
OS TENTOS
A contagem foi aberta pelo Santos aos 15 minutos. Pinhegas fechou pela esquerda, derivou para o centro, e entregou curto a Antoninho, que acompanhava a jogada de seu companheiro. Antoninho não se deteve para ajeitar o balão couro, atirando, na corrida, para o canto direito.
O 2º tento do Santos foi consignado aos 44 minutos. Paulo arrematou ao arco. A bola bateu no travessão, voltou ao campo, e Arturzinho, fazendo a recarga, cabeceou para as redes.
Na etapa complementar, valendo-se de um passe de Alfredo, Telesca finalizou de fora da área. Ivo, que não esperava o remate, foi surpreendido pelo ingresso da bola em seu arco. Santos 3 a 0.
Aos 34 minutos, Pinhegas correu até as imediações da linha de fundo, de onde centrou. Nena e Juvenal entraram em luta, e Juvenal, após levar a melhor, atirou, sem defesa.
Dez minutos depois, o árbitro apitava o final da luta com a vitória do Santos por tentos a zero.
AS EQUIPES
Os quadros formaram:
INTERNACIONAL: Ivo — Nena e Ilmo — Alfeu, Viana e Abigail — Elizeu, Adāozinho, Villalba (Leônidas), Miguel e Carlitos.
SANTOS: Chiquinho — Artigas e Dinho (Expedito) — Nenê, Telesca (Pascoal) e Alfredo — Floriano, Arturzinho, Paulo (Juvenal), Antoninho e Pinhegas.
VALORES EM DESFILE
No Santos (a frase é velha, mas é verdadeira) não há nomes a destacar. Todos, sem exceção, cumpriram ótima partida. Os elementos substituídos, foram-no, unicamente, por se encontrarem em más condições físicas, e não por deficiência técnica. Os substitutos também se houveram a inteiro contento.
O Internacional pagou um tributo caro à demasiada confiança que depositara em si ao entrar em campo. Ficou aturdido ao verificar que o Santos não seria o adversário fácil que esperava ter, e quando quis reagir teve pela frente um quadro em grande noite e que soube fazer jus ao renome que lhe adveio da conquista do título de vice-campeão paulista. Ivo, Nena, Abigail e Adãozinho, os melhores.
A ARBITRAGEM
Dirigiu a pugna o juiz Oswaldo Rolla, o popular Foguinho do futebol de outrora. Clara a sua atuação. Soube apitar com segurança todas as faltas, e foi aboslutamente preciso na sempre difícil consignação de impedimentos.
— A renda da peleja atingiu a soma de 96.758 cruzeiros, recorde dos jogos disputados pelo Santos no Rio Grande do Sul, tal como o resultado de hoje também se constituiu o melhor até agora registado pelo Santos neste Estado.
REGRESSARÁ O SANTOS EM DUAS TURMAS
PORTO ALEGRE, 24 (Especial) — A primeira leva de jogadores do Santos F. Clube deixará esta capital amanhã, às 13 horas. Os demais componentes da delegação rumarão para S. Paulo, sábado, às 10 horas.
Francisco Sá Júnior, enviado especial de "A TRIBUNA", regressa sábado.
Fonte: A Tribuna (SP), n. 283, 25 fev. 1949, p. 6. Disponível em: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/153931_02/46198. Acesso em: 11 abr. 2026.